Desde que passou a ter gestão do Qatar, o Paris Saint-Germain assumiu um status luxuoso no mundo do futebol. Muito dinheiro, grandes contratações e pilhas de troféus nos armários do Parque dos Príncipes. Antes disso, não era assim. Era, sim, um clube ambicioso, mas alternava entre anos muito bons e outros nem tanto.
Mas 2007/08 extrapolou.
Um ano antes, precisou de uma arrancada de seis vitórias nas rodadas finais para não ser rebaixado. Na temporada que antecedeu a Eurocopa da Áustria e da Suíça, essa queda quase aconteceu. Foi por pouco que um incrível “efeito borboleta” não mudou os rumos daquele que viria a ser um dos mais badalados clubes do continente europeu nos anos seguintes.
Vamos relembrar aquela tumultuada temporada a partir de agora:
Paris otimista
Após uma Ligue 1 de luta contra o rebaixamento em 2006/07, o PSG apostou numa reformulação no elenco. O técnico Paul Le Guen, que chegou no meio da temporada anterior e conseguiu evitar a queda, foi mantido. Mas liberou jogadores como David Hellebuyck, negociado com o Nice; Bonaventure Kalou, que foi para o Lens; Édouard Cissé, que reforçou o Besiktas; Fabrice Pancrate, emprestado ao Sochaux; além dos experientes Cristian Rodríguez e David Rozehnal, que partiram para Benfica e Newcastle, respectivamente.
Para repor as saídas, vieram os zagueiros Bourillon e Camara, de Rennes e Saint-Étienne; o meio-campista Didier Digard, do Le Havre; além do brasileiro Ceará, campeão mundial com o Internacional em 2006. Se juntaram a eles garotos da base, como o zagueiro Mamadou Sakho e o meia Younousse Sankharé, jogadores bem avaliados e com passagens pela seleção francesa de base. Aliados de referências como o goleiro Landreau, os meias Rothen e Gallardo e do goleador Pauleta, o Paris tinha boas aspirações para o ano que viria pela frente, afinal de contas, com orçamento anual de 70 milhões de euros, o clube ficava atrás apenas de Lyon e Marseille.

Pelo menos na pré-temporada, o resultado veio. Em dez jogos amistosos, foram sete vitórias, duas derrotas e apenas um empate. O placar mais expressivo foi uma vitória por 3 a 0 sobre o Valencia, pela Emirates Cup, em Londres. Recém-promovido aos profissionais, David Ngog, de apenas 19 anos, deu duas assistências e fez um gol, mostrando suas credenciais a Le Guen.
Um aviso promissor do que poderia ser a nova temporada.
Na contramão
Apesar de uma pré-temporada que trouxe otimismo, o começo de Campeonato Francês colocou o PSG na contramão. Nas primeiras cinco rodadas, a equipe da capital não venceu e acumulou quatro empates e uma derrota. Se nos empates sem gols com Sochaux e Lens houve acúmulo de chances perdidas, nas partidas seguintes vieram os desarranjos em campo. “Para conquistar pontos, a equipe precisa estar mais bem organizada”, disse Pauleta, após a derrota em casa, por 3 a 1, para o Lorient. O Paris foi para o intervalo vencendo aquele jogo, mas sofreu três gols na etapa final.
A pressão em Le Guen também já era evidente. “Estamos no início da temporada e Paul Le Guen já precisa encontrar soluções, já que o PSG ainda não venceu nenhuma partida”, afirmou o PSGMAG, página dedicada ao clube. Anos mais tarde, um jogador que não quis se identificar, disse ao FourFourTwo que “Le Guen nunca foi o técnico certo para o cargo” e que “parecia que ele tinha um Porsche, mas o dirigia como se fosse um Fiat”.
Com Le Guen no cargo, a reação veio diante do Le Mans na 6ª rodada, quando enfim veio a primeira vitória da temporada. Logo antes do Clássico diante do Olympique de Marseille, no Parque dos Príncipes.
O OM, a exemplo do Paris, fazia início de Ligue 1 bastante irregular. Somando isso aos anos de vacas magras dos dois clubes (eclipsados por um Lyon dominante), o duelo tinha uma expectativa menor do que em outras épocas. Mas não o suficiente para esvaziar o estádio, que estava com ocupação elevada.
No placar, um lógico empate, que retratou bem a oscilação das duas equipes. Em duas jogadas de bola parada, Cissé e Luyindula anotaram os gols de um Clássico resolvido antes dos 25 minutos de bola rolando.
Rondando o Z-3
O que se viu até o final do primeiro turno foi o PSG pisando em ovos e sem conseguir embalar. Vitórias como o 2 a 1 sobre o Monaco, na 8ª rodada, foram exceção de uma campanha frágil, de um time que não se encontrava. E o Parque dos Príncipes estava longe de ser uma fortaleza. Bordeaux e Rennes foram até a capital e conquistaram vitórias tranquilas (2 a 0 e 3 a 1, respectivamente) na primeira volta da temporada.
O golpe de misericórdia, que mostrou que aquela pré-temporada foi ilusória, veio na 12ª rodada. Já sem vencer há três partidas, o Paris recebeu o Lyon, que além de atual hexacampeão, liderava a competição com 25 pontos (mais do que o dobro da equipe da capital, que somava apenas 12).
Se os parisienses dependiam de um veterano Pauleta, que não era mais capaz de carregar o time nas costas, os Gones contavam com o frescor e a juventude de Karim Benzema e Hatem Ben Arfa. Quem estava no Parque dos Príncipes naquela noite viu a versão “prime” da dupla. Habilidade, velocidade e atrevimento com a bola nos pés. O suficiente para ir para o intervalo com dois gols de vantagem.
No primeiro gol, Ben Arfa se aproveitou de um corte mal feito por Ceará para acertar um chute rasteiro, no canto esquerdo de Landreau. Dois minutos depois de inaugurar o marcador, o mesmo Ben Arfa aproveitou um rebote do goleiro para ampliar a contagem. O rebote, aliás, surgiu de uma jogada individual de Benzema, que conduziu a bola por alguns metros e se livrou dos marcadores, antes de finalizar forte.
O recital de Ben Arfa e Benzema foi interrompido antes da hora, já que a expulsão do brasileiro Anderson forçou o técnico Alain Perrin a substituir o primeiro. Nada que mudasse a história da partida. O Paris marcou duas vezes, com Pauleta, mas Govou balançou as redes entre os dois gols do camisa 9 português e impôs a quarta derrota do clube da capital.
O caminho rumo à zona de rebaixamento foi inevitável e o Paris ingressou na área vermelha na 15ª rodada, após uma derrota fora de casa (incrivelmente, a primeira como visitante) diante do Nice. A situação se agravou na semana seguinte, diante do Caen, em pleno Parque dos Príncipes. O Malherbe, que havia feito somente um gol fora de casa até aquele estágio da competição, voltou a balançar as redes com Florentin, aproveitando um erro grosseiro de Ceará, que tropeçou na bola e deixou o atacante adversário livre para marcar o único tento do confronto.
Os conflitos com a bancada se tornaram maiores a partir de então. Jérôme Rothen, uma das referências do time, foi ameaçado na própria casa. O camisa 25 precisou receber proteção policial nos jogos seguintes.
Dentro das quatro linhas, o Paris alternou entre a 17ª e a 18ª colocação até o fim do turno. Ficou fora da zona da perigosa após as vitórias sobre Auxerre e Saint-Étienne, ambas fora de casa, mas voltou para lá no revés diante do Toulouse.
Aliás, a partida diante do Téfécé foi um marco na relação conflituosa entre o time e a torcida. Sem vencer em casa e com uma campanha turbulenta, o Paris viu seus fãs deflagrarem uma greve, boicotando os 15 minutos iniciais do jogo. Melhor pro time visitante, que abriu 2 a 0, com dois gols de Elmander (o primeiro surgiu de uma lambança de Camara, que recuou uma bola sem perceber a saída de Landreau e deixou o sueco à vontade para marcar com a trave aberta).
A reação negativa da torcida, que deixou as tribunas antes de o jogo acabar, ofuscou o recorde quebrado por Pauleta, que chegou ao 101º gol com a camisa parisiense e se tornou o goleador máximo da história do clube. O feito ficou em segundo plano diante de uma crise sem precedentes, de um time que fechou o turno sem vencer em casa.
“Não tenho decisões para anunciar agora, mas não vamos permanecer passivos. Com os acionistas, vamos convocar o conselho de administração esta semana e vamos considerar todas as soluções sem cometer erros. Veremos como tirar o clube da crise”, declarou o presidente Alain Cayzac ao Canal+.
Ano novo, vida nova
A chegada de 2008 trouxe novidades estruturais e administrativas para o PSG. Walter Butler, dirigente da Butler Capital Partners, cedeu a maior parte de suas ações para a Colony Capital, que passou a deter 68% do clube parisiense, tornando-se, assim, o acionista majoritário do PSG.
Dentro das quatro linhas, enfim veio a primeira vitória em casa na temporada. No confronto direto diante do igualmente ameaçado Lens (dois pontos abaixo na tabela), o Paris venceu por 3 a 0, com três gols no segundo tempo. Diané anotou dois e Pauleta guardou o outro. A vitória larga levou o time da capital para a 12ª colocação, cinco pontos acima da zona de rebaixamento.
“Esta vitória faz bem a todo o clube. Também faz bem ao público, e nos permite sermos mais otimistas para o futuro. No final da partida, sentimos prazer em jogar diante da nossa torcida”, destacou Paul Le Guen.

Os três pontos conquistados diante do Lens vieram seguidos de classificações nas copas nacionais. Na da França, o Paris desbancou o modesto Épinal, enquanto na da Liga, o Valenciennes foi deixado pelo caminho.
Nesse meio tempo, o elenco parisiense foi modificado, e duas apostas vieram do mercado brasileiro. Nas últimas horas de mercado de transferências aberto, o PSG anunciou as chegadas de Souza e Éverton Santos. O primeiro, que herdou a camisa 10 de Gallardo, que se transferiu para o futebol dos Estados Unidos, veio gabaritado do São Paulo, onde conquistou duas edições do Campeonato Brasileiro, além da Taça Libertadores e o Mundial de Clubes em 2005. Já o segundo veio do Corinthians e chegou classificado como “um atacante rápido e habilidoso”.
Clássico precede a crise
Até a chegada do clássico, diante do Marseille, o Paris conseguiu somar cinco pontos em 12 disputados e manteve uma relativa distância da zona de rebaixamento, na 13ª posição. Só que a visita ao Vélodrome seria um divisor de águas para a sequência da temporada. Uma vitória sobre o OM colocaria o time de Le Guen no top-10 da liga. Mas um revés mantinha o cenário nebuloso.

Diferentemente do jogo do turno (o insosso 1 a 1 no Parque dos Príncipes) o encontro do Vélodrome foi diferente. Tenso, quente e polêmico, acima de tudo. Aos 30 minutos, o árbitro Bertrand Layec assinalou pênalti de Laurent Bonnart em Diané, em um desarme limpo e claramente fora da área. Um erro grotesco que não foi perdoado por Rothen, que abriu a contagem.
Sete minutos depois, Nasri cobrou falta na área, Landreau saiu mal e Taiwo subiu mais que a defesa para marcar de cabeça. O detalhe do lance é que antes de entrar, a bola bateu na própria mão do nigeriano, uma jogada que certamente seria anulada com as regras atuais e se houvesse VAR.
No último lance da primeira etapa, Valbuena encontrou espaço na intermediária e tocou para Niang. O senegalês foi com tudo pra área e chutou cruzado, no canto de Landreau, virando a partida antes mesmo do intervalo.
Na etapa final, o PSG fez força para jogar e criou muito pouco. O Marseille, com espaço para contra-atacar, foi quem teve as melhores chances e não ampliou o placar por falta de capricho nas finalizações. O 2 a 1 se manteve até o apito final.
Um adendo sobre os brasileiros: Souza, que já havia estreado na rodada anterior, foi titular e foi o contratado mais utilizado naquela metade de temporada. Éverton Santos, entretanto, entrou nos minutos finais e não apareceu mais no time. Participou de dois jogos pela Copa da França, se lesionou gravemente e nunca mais vestiu a camisa da equipe. Passou anos vinculado ao clube, mas sempre emprestado a outras agremiações. Uma contratação inexplicável até hoje, e considerada por alguns como uma das piores da história do Paris.
“As pessoas são livres para expressar sua opinião. Se olharmos apenas para o resultado final, é muito fácil apontar o dedo. Eu tenho minha parcela de responsabilidade, eu poderia ter agido de forma diferente, levado minha família, sido mais firme, demonstrado mais coragem. Mas a minha falta de experiência pesou muito. Eu era um garoto de 21 anos que não me sentia acolhido. Ouvi conversas, vi olhares. Isso me afetou. A certa altura, o sonho se transformou em pesadelo, e eu só queria voltar para casa. Com a maturidade que tenho hoje, tenho certeza de que as coisas poderiam ter sido totalmente diferentes”, disse Éverton ao Le Parisien.
De volta à Z-3
A derrota em Le Classique impôs um desânimo moral no Paris, que foi ladeira abaixo. Perdeu para Bordeaux, Rennes e Lyon e não conseguiu mais do que empates com Monaco e Valenciennes. Somando a sequência que vinha anteriormente, o PSG já acumulava oito rodadas sem vitórias. A aproximação do Z-3 virou ingresso na área de queda após o 4 a 2 diante dos Gones, na 30ª rodada.

O cenário da Ligue 1 continuava contrastando com o das copas. Na Copa da França, o Paris já estava nas quartas de final, enquanto na Copa da Liga, ergueu a taça na semana seguinte à derrota para o Lyon. A decisão disputada no Stade de France rendeu muita polêmica, já que o PSG venceu com um gol nos acréscimos, num pênalti pra lá de controverso, de Hilton em Luyindula. “Tenho a impressão de ter sido roubado. Para mim, é roubo. O senhor Duhamel (árbitro do jogo) roubou a nossa final”, reclamou o técnico Jean-Pierre Papin.
Além desse lance, uma faixa esticada pela torcida do PSG, com insultos a população de Lens, fez com que o clube fosse excluído da edição seguinte da Copa da Liga (decisão revertida na justiça posteriormente). O clube do norte, com apoio da Prefeitura, chegou a pedir a repetição da final, mas a solicitação foi em vão.
Enquanto isso rolava nos bastidores, o Paris se concentrava para um duelo decisivo pela Ligue 1. O adversário seguinte seria o Strasbourg, que estava três pontos à frente. Os veículos que cobriam o PSG consideravam aquela “a segunda final da semana”, e talvez a mais importante.
Com o Parque dos Príncipes lotado, os parisienses arrancaram a vitória na marra, com um gol aos 27 minutos da etapa final. Mendy fez a jogada pela direita e rolou para o decisivo Diané desviar para as redes. O marfinense somava, naquele momento, sete gols na temporada e dividia a artilharia da equipe com o ídolo Pauleta.
Apesar da vitória decisiva, o PSG seguiu no apuro e a sequência de jogos não ajudou. Vieram derrotas para Nancy, Nice e Caen, que mantiveram a equipe dentro da zona de rebaixamento. O revés para o Caen, por 3 a 0, provocou a ira da torcida, que promoveu atos de vandalismo no CT do clube, depredou o veículo de Sylvain Armand e ainda ameaçou outros atletas, com faixas como “Se cairmos, nós caçamos vocês”.
Em meio ao atrito, o PSG sofreu uma nova mudança interna. O presidente Alain Cayzac apresentou o pedido de demissão e Simon Tahar assumiu a direção do clube de maneira interina até o fim da temporada.
A tensão era nítida, já que após 34 rodadas, o Metz já estava rebaixado, enquanto quatro times, entre eles o Paris, tentavam fugir do descenso. Três pontos separavam o Strasbourg, penúltimo colocado, do Toulouse, 16º.
O Téfécé, aliás, era o adversário do Paris na antepenúltima rodada da liga. Uma semana antes, o PSG venceu o Auxerre por 3 a 2 e o Toulouse perdeu para o Lille, o que os colocou em pé de igualdade, com 38 pontos, antes do início da partida. O encontro no Estádio Municipal tinha cara de decisão.
Jogando em casa, o TFC tomou a iniciativa desde o começo, mas criou pouco. Ainda assim, foi para o vestiário no intervalo reclamando de um pênalti de Camara em Mangaré em uma das últimas ações da etapa inicial. Houve empurra-empurra no túnel de acesso aos vestiários e muita cobrança ao árbitro Fredy Fautrel.
Na volta para o segundo tempo, o ritmo caiu e o Paris se aproveitou. Em uma das poucas jogadas que conseguiu criar, Bernard Mendy ingressou na área pela direita e chutou cruzado, vencendo Douchez e abrindo o placar, aos 18 minutos. A vantagem foi sustentada até o minuto 43, quando Fofana aproveitou um bate e rebate na grande área e empatou a partida, assegurando a todos que a briga contra o descenso iria até o fim.
O adeus de Pauleta
Já era sabido desde a metade da temporada que Pauleta penduraria as chuteiras ao término da Ligue 1. A meta principal era dar ao português uma despedida honrosa, sem rebaixamento. Por isso, o duelo contra o Saint-Étienne, na penúltima rodada, seria especial. Além do clima decisivo, de um time que precisava sair da zona de rebaixamento, era a última partida do camisa 9 em Paris.
Pauleta bem que tentou. Criou chances, perdeu um gol incrível na primeira etapa, mas se despediu do torcedor parisiense sem balançar as redes. Perrin e Clément foram os únicos que marcaram no 1 a 1 que marcou o adeus do português. Emocionado, ele desabou em lágrimas ao apito final.
O empate poderia ser um resultado ruim, mas foi suficiente para tirar o PSG da zona de rebaixamento. Toulouse, Lens e Strasbourg, adversários diretos, perderam seus jogos e o ponto somado contra o ASSE fez o Paris saltar para a 16ª colocação. Bastaria uma vitória simples contra o Sochaux para evitar a trágica queda.
As brigas da rodada 38
A rodada final, em 17 de maio de 2008, chegou com muita coisa a ser definida, inclusive o título. O Lyon tinha dois pontos de vantagem para o Bordeaux e um saldo de gols bem maior, o que lhe deixava a um empate do heptacampeonato. Gones e Girondins já tinham duas das três vagas na Liga dos Campeões do ano seguinte, enquanto Nancy e Marseille lutavam pela terceira.
Na parte da briga que interessava ao PSG, que era contra o rebaixamento, dois times lutavam com a equipe da capital: Toulouse e Lens. Ambos tinham 39 pontos, um a menos do que o Paris, mas os Rouge et Noir estavam na área de queda devido ao saldo de gols. Metz e Strasbourg já estavam rebaixados e apenas cumpriam tabela.
Na rodada derradeira, o Lens era quem tinha o desafio mais indigesto: recebia o Bordeaux, que ainda tinha chances de título. O Toulouse também jogava em casa, mas o seu oponente era o Valenciennes, já de férias no campeonato. Dos três que corriam contra a queda, apenas o PSG saiu de seus domínios e foi até o Auguste Bonal encarar o Sochaux, também sem aspirações na temporada.
Todos os dez jogos da rodada final começaram no mesmo horário, mas foi o Lyon quem tratou de dar o rumo decisivo da competição em poucos segundos. 23, para ser mais exato. Foi o tempo que Karim Benzema levou para colocar o OL em vantagem contra o Auxerre. Isso esfriou os ânimos do Bordeaux diante do Lens, no jogo que interessava ao Paris.

Quem também começou com o pé no acelerador foi o Toulouse. Logo aos 4 minutos, Mathieu cobrou falta rasteira, a bola desviou e entrou. Com 42 pontos, o TFC ultrapassou o PSG e encaminhou a permanência na elite.
Precisamos abrir parênteses nos acontecimentos da rodada para falar de Amara Diané. Desde cedo, o marfinense estava na França e foi considerado uma das principais promessas do futebol africano no começo dos anos 2000. Rápido e habilidoso, se destacou nas divisões inferiores do país até chegar na elite em 2005, ao vestir a camisa do Strasbourg. Os 11 gols que fez na única temporada pelo clube foram suficientes para atrair a atenção do PSG, clube que passou a defender a partir de 2006/07.
Na frieza dos números, Diané foi um atacante irregular na capital. Nem tantos gols e nem sempre titular, devido a forte concorrência de Pauleta e Luyindula. Mas se perguntar para quem viveu aquela época, o que ele significou para o time, a resposta será outra. E os gols decisivos marcados nas rodadas anteriores, ganharam peso ainda maior pelo que aconteceu no Auguste Bonal.
Aos 22 minutos da etapa inicial, uma bola dividida na intermediária caiu nos seus pés. Diané chamou para si a responsabilidade, ingressou na grande área e soltou o pé direito. O tiro cruzado encontrou o caminho das redes e o Paris assumiu a dianteira do placar.
Naquele instante, o estádio Félix Bollaert, tradicionalmente quente nos jogos do Lens, estava congelado. Além de vencer o forte Bordeaux, a equipe treinada por Jean-Pierre Papin precisaria tirar o saldo de dois gols do Toulouse, que ainda vencia seu compromisso. A situação só mudou aos 38, quando Johan Audel completou cruzamento da direita e empatou para o Valenciennes contra o Toulouse, deixando TFC e Lens empatados em pontos
No fim dos 45 minutos iniciais, o Paris estava se salvando junto do Téfécé, enquanto os Rouge et Noir amargam um duro rebaixamento pelo saldo de gols.
Diané: o nome que entrou para a história
Chegada a etapa final, a tensão aumentou. O Lens se expôs diante de um Bordeaux que via o título a caminho de Lyon, enquanto o Toulouse tentava fazer valer o fator campo. Único a vencer entre os três ameaçados, o PSG buscava garantir o resultado.
A partir dos 20 minutos, o caos se instaurou e a luta contra a queda ganhou cenário caótico. A começar pelo que acontecia em Lens. Primeiro teve gol do Bordeaux. O time da casa já mostrava sinais de desespero, cedeu espaços e os visitantes aproveitaram com Cavenaghi. Três minutos depois, porém, Monterrubio, de pênalti, empatou.
Já o PSG, que era o mais tranquilo dos três times, voltou pro bolo aos 29 minutos. Uma cobrança de escanteio da esquerda encontrou N’Daw livre na pequena área. De cabeça, o camisa 8 do Sochaux empatou a partida. Quase ao mesmo tempo, no Estádio Municipal de Toulouse, Siriex recolocou o Toulouse em vantagem.
De repente, o Paris se viu a um gol, seja sofrido ou um marcado pelo Lens, de um impensável rebaixamento. Esse gol poderia ter saído aos 35 minutos, no Félix Bollaert, quando Maoulida foi lançado na área, prendeu a bola e rolou para Bisevac, que chegou chutando firme. Ramé defendeu e impediu a virada lensois.
O alívio veio quando o relógio indicava 38 minutos. Bourillon recuperou a bola no campo de ataque e tocou para Diané. O marfinense deixou a bola escapar no domínio, mas ele persistiu e lutou com o zagueiro até o limite, conseguindo dar um toque de bico. A pelota passou mansa pelo meio das pernas do goleiro e foi pro fundo das redes. A festa dos 800 torcedores que viajaram até Sochaux foi comparável ao título festejado pelos torcedores do Lyon, em outra região do país.
Bastou segurar o 2 a 1 nos minutos finais e celebrar a permanência na elite. Em Lens, saíram ainda outros dois gols, um para cada lado, e não mudaram o cenário. PSG e Toulouse estavam salvos.
“Jogamos o jogo das nossas vidas naquele dia. A pressão era intensa, mas, por mais engraçado que pareça, eu não sentia muita ansiedade antes do início da partida. Porém, ainda me lembro do apito final. Parecia que tínhamos acabado de ganhar um título. As pessoas estavam em lágrimas”, relembrou Mamadou Sakho.
Ainda restou um jogo pela Copa da França, na qual o Paris perdeu para o Lyon, na prorrogação, por 1 a 0. Mas não mudou o fato de que foi uma temporada para esquecer. Foram nove rodadas dentro da zona de rebaixamento e outras tantas rodeando ela. Um ano que foi salvo nos jogos finais.
Aquela noite de 17 de maio de 2008 mudou a história do PSG. Sem os dois gols de Diané, talvez não tivéssemos Qatar no Paris e a centena de títulos que viriam dali em diante.



