Quais nomes vêm em sua cabeça ao falar da Copa do Mundo de 1998? Zinedine Zidane, o grande astro do torneio? Ronaldo, o craque que teve a famosa convulsão antes da final? Ou seria Davor Suker, o goleador da jovem Croácia? Se essa pergunta for feita no Paraguai, talvez a resposta seja José Luis Chilavert.
Goleiro de personalidade forte e conhecido também por ser cobrador de faltas e pênaltis, Chila teve uma Copa praticamente irretocável, sendo um dos personagens da campanha paraguaia, que só parou nas oitavas de final, diante da França. Num jogo onde também foi protagonista, Chilavert só foi vencido por Laurent Blanc na prorrogação.
As memórias de Chila em território francês, porém, não cessaram em 1998. Dois anos depois, ele se aventurou no futebol local e o Strasbourg foi sua casa por duas temporadas. Um período intenso, controverso e que terminou com uma taça no armário, mas um rebaixamento na conta.

Relembre essa história:
Uma chegada inesperada
A Europa não era um continente desconhecido para o goleiro paraguaio. Entre 1988 e 1991, quando já era destaque no futebol argentino, Chilavert desembarcou na Espanha para defender o Real Zaragoza. O período em território ibérico, porém, não foi dos mais felizes. Não emendou grandes atuações e ainda foi proibido de cobrar faltas ou pênaltis, afinal de contas, o único que cobrou terminou em um “gol duplo”: ele balançou as redes, mas foi vazado na saída de bola enquanto ainda comemorava o tento.
A frustração, somada ao reconhecido temperamento enervado, fizeram com que acumulasse problemas extracampo e deixasse o Velho Continente no começo dos anos 90 para defender o Vélez Sarsfield, onde teve os melhores anos da carreira. Foram nove troféus, entre eles, a Libertadores e o Intercontinental. Se estabeleceu como um dos grandes goleiros da América do Sul e disputou a Copa do Mundo de 1998, onde esteve entre os principais da posição.
Quando já tinha mais o que provar, em 2000, decidiu voltar para a Europa, e o destino foi a França, país onde dois anos antes se destacou durante a Copa. Aos 35 anos, foi contratado pelo Strasbourg, em uma transferência que girou em torno de 2,5 milhões de dólares. O paraguaio chegou ao clube para substituir Thierry Debès, que não ficou nada feliz com a notícia da vinda de um novo concorrente, principalmente pela forma como a negociação foi conduzida pelo então presidente Patrick Proisy (guarde bem este nome).
Ninguém dentro do clube, nem mesmo o técnico Claude Le Roy, sabia das conversas. Debès esbravejou. “É uma grande decepção. Tive várias ofertas e assinei novamente por cinco anos com o Strasbourg. Proisy nunca falou comigo diretamente. O futebol é uma profissão sem sentimentos”. Já o zagueiro Habib Beye, uma das lideranças do grupo, afirmou que o problema não era o goleiro em si, mas o impacto que isso poderia gerar no elenco.
Impacto maior sentiu Teddy Bertin, uma das referências técnicas do time. Segundo o Libération, no dia da chegada de Chila, ele ficou no carro para evitar um cumprimento ao novo companheiro de time. O temor era que o goleiro tirasse seu posto de cobrador de faltas e pênaltis, além da tarja de capitão. A quebra do elenco foi sentida no primeiro dia.
Já Debès chegou a ser dispensado, mas foi chamado de volta devido à primeira polêmica de Chilavert em território francês. Ele chegou ao país com uma suspensão de dois jogos, ainda vinda do futebol argentino. O paraguaio até foi relacionado para enfrentar o Toulouse, mas precisou ser sacado por prevenção.

Primeiras impressões ruins
Além do ambiente desfavorável, Chilavert chegou em um clube que estava à beira do caos no Campeonato Francês. Quando foi anunciado, o Strasbourg corria contra o rebaixamento, tinha uma defesa extremamente vulnerável e acumulava recordes negativos que não eram anotados desde a 2ª Guerra Mundial.
Após cumprir os dois jogos de suspensão, o paraguaio enfim ficou apto a estrear no dia 12 de novembro, quando o Strasbourg recebeu o Bordeaux, pela 15ª rodada. Acabou dando a lógica. Os Girondins, que lutavam pelo título, venceram por 2 a 0, impondo a nona derrota ao RCSA.
Chila deixou a pior impressão possível, mesmo sem ter uma falha clara. No visual era nítido: ele estava “inchado”. Segundo Stéphane Roda, meio-campista do Strasbourg, o goleiro passou por um tratamento à base de cortisona, que provocava esse inchaço. “Ele realmente não estava fino”, disse. “Não era mais o Chilavert da Copa do Mundo de 98. Ele teve problemas para treinar, não mergulhava mais, foi complicado”, completou Roda.
A primeira vitória veio na rodada seguinte, um 2 a 1 sobre o Auxerre, mas aquele foi o único triunfo até a virada de 2000 para 2001. De quebra, Chilavert não conseguiu quebrar a péssima sina da defesa extremamente vazada do Strasbourg. Até o último dia de dezembro foram duas derrotas e dois empates e seis gols sofridos.
Nessa sequência negativa, alguns jogos foram marcantes para exemplificar que Chilavert não vivia sua melhor época. Na 18ª rodada, no empate por 1 a 1 com o Lille, quase deu um gol de bandeja aos Dogues. Em uma saída de bola com os pés, o paraguaio entregou de presente para Landrin, que tentou um gol por cobertura da lateral do gramado. A bola encobriu o goleiro, mas não entrou porque tocou no travessão.

Na virada de 2000 para 2001, Chilavert abriu portas para deixar o Strasbourg ao receber uma proposta de um clube mexicano, como declarou ao Le Parisien. Após uma conversa com a diretoria, decidiu ficar. Nesse meio-tempo, perdeu cinco jogos, três pelo Francês e dois pelas Copas – um da França e outro da Liga.
O retorno foi em fevereiro, com a equipe na lanterna da Ligue 1, num caótico empate de seis gols com o Saint-Étienne e Chilavert falhou em um dos gols. Logo aos 8 minutos, uma saída errada em um escanteio terminou no gol de Potillon. O 3 a 3 em nada ajudou o RCSA, que já via o primeiro time fora da zona de rebaixamento dez pontos à frente. A queda de divisão parecia ser questão de tempo.
Sucesso na Copa
Se no Francês a campanha ia de mal a pior, com um rebaixamento inconteste, na Copa da França o cenário era outro. Depois de despachar adversários de divisões inferiores nas primeiras fases, o Strasbourg alcançou a decisão em grande estilo, eliminando aqueles que seriam os dois primeiros colocados da Ligue 1: nas quartas, fez 3 a 0 no Lyon, futuro vice-campeão nacional, e na semifinal, aplicou 4 a 1 no Nantes, que ergueria o troféu semanas depois.
Contra os Canários, aliás, o paraguaio teve seu primeiro momento de protagonismo com a bola nos pés. Nos acréscimos do jogo, com o placar já definido, Luyindula invadiu a grande área e foi derrubado. O árbitro não hesitou em assinalar o pênalti e Chilavert logo se apresentou para a cobrança. Ele bateu firme de pé esquerdo, venceu Landreau e decretou a goleada que colocou o RCSA na decisão.
A partida final no jovem, mas já lendário Stade de France marcou o verdadeiro grande momento de Chilavert em território francês. O jogo foi contra o Amiens, da 3ª divisão, e teve pouquíssimas emoções. Uma delas proporcionada pelo próprio goleiro paraguaio, é verdade. No segundo tempo, uma saída com o “braço curto” quase terminou no gol de Rivenet, que finalizou para fora mesmo com a trave aberta. Mas no fim, ele ainda foi protagonista.
Antes mesmo do término do tempo regulamentar, um erro grosseiro de Njanka, próximo da pequena área, deixou Sampil em condições de marcar, mas Chilavert cresceu na frente do camisa 9 e fez uma defesa impressionante. Essa intervenção segurou um 0 a 0 que perdurou nos 120 minutos de bola rolando.
Na disputa por pênaltis, foi a hora do brilho máximo do goleiro sul-americano. Na quarta sequência de cobranças, com todos os batedores anteriores tendo convertido suas batidas, Chilavert deu um considerável pulo pra frente e espalmou a cobrança a meia altura de Abalo. Minutos depois, o paraguaio apareceu para cobrar o quinto e último pênalti da série. Não falhou na hora decisiva, balançou as redes e deu o título ao Strasbourg, que somou uma alegria inesquecível em uma temporada que tinha tudo para ser traumática.
Desfecho na justiça
O título da Copa da França, que poderia indicar o início de um momento mais feliz para Chilavert, foi apenas um breve momento feliz de uma história que começou conturbada e terminaria pior ainda. Mesmo participando da campanha na segunda divisão francesa na temporada seguinte, sendo titular no campeonato inteiro, ele acabou demitido em setembro de 2002, embarcando numa disputa judicial que se arrastaria por algum tempo.
Na ocasião, Chilavert se recusou a jogar, alegando que o Strasbourg devia a ele quase 2,5 milhões de dólares, em função da transferência junto ao Vélez Sarsfield. O goleiro disse, à época, que tinha um documento assinado pelo presidente Patrick Proisy, que rebateu: não só disse nunca ter visto tal documento como afirmou que a assinatura foi falsificada.
Chilavert chegou a ser condenado, em primeira instância, a seis meses de prisão com pena suspensa, mas apelou da decisão e conseguiu a absolvição.
A passagem de Chilavert pelo Strasbourg acabou assim: breve, intensa e contraditória, um retrato fiel do personagem. Em pouco mais de duas temporadas, o paraguaio alcançou a glória ao conquistar a Copa da França de 2001, mas o desgaste culminou em uma saída conturbada e um processo judicial que só terminou anos depois. Entre feitos e polêmicas, Chilavert deixou na Alsacia a lembrança de um goleiro genial e temperamental, cuja passagem foi tão marcante quanto turbulenta.


