Lendas, cantor e 8×2: A história do bizarro amistoso entre Marseille e Manchester United de 2011

Já imaginou ver seu time goleando o campeão da badalada Premier League e vice-europeu, em uma vitória por oito gols? Mesmo sendo em um amistoso, isso é digno de nota, não é mesmo? Em agosto de 2011, o torcedor do Olympique de Marseille teve esse sentimento e viu sua equipe aplicar um impiedoso 8 a 2 no Manchester United, de Sir Alex Ferguson.

Mas o fato de essa goleada ter sido aplicada em um amistoso é apenas uma vírgula dessa partida insólita na história dos dois clubes. Se o Marseille, ainda treinado por Didier Deschamps, estava em campo com sua formação principal, os mancunianos estavam escalados com poucos titulares, reforçados por alguns atletas da base do Monaco – o jogo foi disputado no Stade Louis II -, ex-jogadores e até mesmo por um cantor.

Marseille e United, disputado em 2 de agosto de 2011, definitivamente, não foi um jogo qualquer e essa história merece ser contada. Recordamos aquele confronto a partir de agora.

Pré-temporada no fim

Era reta final de pré-temporada para os dois times. O Marseille, então vice-campeão francês, vinha de duas vitórias e duas derrotas nos amistosos anteriores. Mas lavou a alma dias antes do encontro com os ingleses, ao se vingar do Lille, no Troféu dos Campeões. O jogo em Tanger teve nove gols, muitos deles na reta final, e terminou com a taça a caminho do Vélodrome, que tinha perdido a Ligue 1 passada para os Dogues.

Já o campeão inglês Manchester United ainda remoía o vice europeu diante do Barcelona, em pleno Wembley. Teve a chance de se vingar em um amistoso nos Estados Unidos, onde fazia a sua pré-temporada contra adversários da Major League Soccer. Venceu o time de Pep Guardiola por 2 a 1 na ocasião.

Para OM e United, era o momento dos retoques finais antes de uma nova e desafiadora temporada. Mas aquele jogo no Louis II de pouco serviu para esses ajustes.

O amistoso daquela noite de agosto era beneficente, em prol de uma entidade criada pelo ex-goleiro Pascal Olmeta, com passagem pelo próprio Marseille, que ajudava crianças adoentadas. Todo o valor arrecadado com a partida foi destinado a essa instituição. Ou seja, a partida foi somente um pretexto para uma causa maior, o que abriu brecha para um jogo num ritmo, digamos, de “pelada”.

Deschamps, por exemplo, até relacionou pro confronto seus principais jogadores, como André Ayew, Loic Remy e Steve Mandanda. Mas a formação inicial teve, em suma, atletas reservas, salvo uma ou outra exceção.

Mas o que chamou a atenção mesmo foi o time de Ferguson. Ele escalou alguns rostos conhecidos, como do lateral esquerdo Patrice Evra e do meia Park Ji-sung, além de jovens que estavam ganhando minutos no time principal, como Chris Smalling na zaga, Tom Cleverley no meio-campo e Danny Welbeck no ataque. Mas como boa parte do elenco ainda estava em pré-temporada nos Estados Unidos, o restante da formação foi um tremendo Frankenstein.

A começar pelo gol, que tinha um ex-atleta profissional. Simplesmente, Fabien Barthez. O campeão mundial em 1998 havia pendurado as luvas quatro anos antes do amistoso. Mas pela causa, decidiu jogar naquela noite pelo clube que defendeu de 2000 a 2004. Além de Barthez, estavam no time Kevin Malcuit, na época, uma jovem revelação da base do Monaco; o argelino Yazid Mansouri, que estava em reta final de carreira, jogando no Catar; Chadir Belghazouani, nome experimentado das divisões inferiores da França; e um desconhecido Idir Belhaid – de pouquíssimos registros na internet, salvo um fórum ou outro.

Barthez, ao lado do Príncipe Alberto, foi o titular da alternativa formação inglesa
Foto: BestImage/Pure People

E não era apenas a escalação do Manchester que era diferente da habitual. A camisa também não era a mesma que estávamos acostumados a ver. O design do uniforme e a fornecedora do material esportivo estavam ali, mas não havia o escudo, nem os patrocinadores dos Red Devils – que jogaram de branco naquela noite. Uma questão comercial, que tinha muito a ver com o fato de o jogo ser beneficente e a formação ter atletas de outros clubes. Era o Manchester United, mas também não era.

O jogo

Diante de um rival alternativo, o Marseille, mesmo reserva, tratou de se impor e abriu o placar antes dos 15 minutos. Um escanteio cobrado por Morgan Amalfitano provocou o caos na defesa inglesa e a bola sobrou para Nicolas Nkoulou, que acertou um belo voleio e balançou as redes pela primeira vez. Barthez, voltando a jogar contra o clube onde foi campeão europeu em 1993, nada pode fazer.

Nkoulou abriu a contagem no Louis II
Foto: OM4ever

Aos 33, foi a vez da então revelação Jordan Ayew guardar o dele. Prestes a completar 20 anos, o irmão de André avançou com dribles curtos pela intermediária e contou com um corte errado da defesa para fintar o vaiado Patrice Evra – ainda resquício da greve na Copa de 2010 – e ficar frente a frente com o goleiro adversário. De pé direito, deslocou Barthez e ampliou a contagem.

Só que os visitantes reagiram e o frescor da juventude de Tom Cleverley e Danny Welbeck os ajudaram a igualar a contagem antes do intervalo. Os dois gols saíram em jogadas parecidas: bolas em profundidade, nas costas de Azpilicueta. Primeiro Welbeck, depois Cleverley, e assim, o 2 a 2 pintou no placar.

O segundo tempo veio e o famoso festival de substituições começou. Deschamps, ao menos, chamou a cavalaria. Mandanda, Lucho González e Remy foram alguns dos jogadores que saíram do banco. No United, Ferguson usou outra lenda do futebol francês: David Ginola, aposentado há quase dez anos e com um físico nada privilegiado.

Quem também deixou a suplência foi Benoît Cheyrou. E com 40 segundos, ele recolocou o Marseille em vantagem num belo chute da entrada da área. Desta vez, venceu Martin Sourzac, goleiro da base do Monaco, que substituiu Barthez. Antes dos 15 minutos, ele foi batido outras duas vezes: uma por Diawara, de cabeça, e depois num chute colocado de Jordan Ayew.

Aos 20 minutos, com o placar em 4 a 2 para o Marseille, um cantor veio para a festa. Ginola, no auge dos 44 anos, não aguentou mais do que duas dezenas de minutos em campo e cedeu lugar a Matt Pokora, astro pop francês.

Matt Pokora [esq.] substituiu David Ginola [dir.] no amistoso
Foto: BestImage/Pure People

“Depois de festejar ao lado de P. Diddy durante os dois shows do astro do hip-hop no Gotha Club, em Cannes, e no VIP de St Tropez, “MP”, que sonhava em ser jogador de futebol, jogou uma partida pelo mítico time do Manchester United, que enfrentou OM na noite passada. Um desgosto para MP, um torcedor inveterado do Olympique de Marseille. ‘Eu prometo, é a única vez que aceitarei jogar contra o OM!’, ele se apressou em postar em sua conta do Twitter”, descreveu a Revista Gala.

Obviamente, não seria a presença de um cantor que faria a partida se equilibrar. Antes do apito final, Remy marcou duas vezes e Cheyrou fechou a conta de um largo 8 a 2, no Louis II, que rendeu até uma resposta bem humorada de Sir Alex Ferguson. “Sim, é a primeira vez que sofro oito gols. Mas foi em um amistoso”.

No fim das contas, o placar foi o que menos importou. O jogo teve um viés solidário para ajudar crianças doentes. Mas, acima de tudo, rendeu boas histórias para o dia em que o Marseille aplicou uma impiedosa goleada no vice-campeão europeu – que mais parecia um time de jogos beneficentes de final de ano.

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