Durante muito tempo, o futebol francês cultivou uma característica que fez muito bem ao esporte local, que foi a descentralização de forças. Por mais que o investimento pesado estivesse nos grandes centros, como Paris e Marseille, times de outras regiões do país, constantemente, apareciam nas cabeças e conquistavam resultados expressivos. Foi o caso do Auxerre por algum tempo.
Fundado em 1905, o clube da região da Borgonha, de uma comuna com pouco mais de 35 mil habitantes, teve seu ápice entre os anos 90 e 2000, quando foi campeão francês (1996) e ergueu quatro vezes a taça da Copa da França (1994, 96, 2003 e 05). Sempre foi presença constante na primeira divisão local, teve uma academia de jogadores reconhecida, revelando nomes como Philippe Mexès e Djibril Cissé, e mostrou que era possível fazer futebol com recursos escassos e trabalho duro.
Foi assim que na temporada 2009/10, um valente time comandado pelo veterano Jean Fernandez desbancou equipes mais badaladas, engatou sequências de invencibilidade e alcançou um impensável pódio na Ligue 1, se gabaritando para enfrentar campeões europeus no ano seguinte na Champions League.
A marcante campanha do Auxerre da temporada que antecipou a Copa do Mundo da África do Sul você relembra nos próximos parágrafos:
Mudança política e base mantida
A temporada 2009/10 começou para o Auxerre com uma considerável mudança nos bastidores. Aos 80 anos de idade, Jean-Claude Hamel deixou a presidência do clube que dirigia desde 1963. Todas as grandes conquistas do AJA foram com ele no comando. Agora, o bastão era entregue para o empresário Alain Dujon.
Se a estrutura política do clube foi modificada, o mesmo não ocorreu com o futebol. Jean Fernandez, técnico do time desde 2006, seguiu no comando técnico e tinha no plantel algumas peças de confiança do 8º lugar da temporada anterior, como o lateral Cedric Hengbart, o meia Valter Birsa e o atacante Ireneusz Jeleń.

O desfalque maior foi no setor de criação. O técnico meia Thomas Kahlenberg, de cinco gols e cinco assistências na Ligue 1 anterior, foi negociado com o Wolfsburg e trocou o futebol francês pelo alemão.
Com boa parte da base do elenco mantida, Fernandez utilizou a pré-temporada com a intenção de dar ritmo de jogo e entrosar o plantel para Ligue 1. Foram cinco vitórias, um empate e uma única derrota nas partidas preparatórias, que colocou o AJA frente a frente adversários como o Étoile du Sahel, em preparação para a Liga dos Campeões da África, e o Nancy, que seria um dos oponentes no Francês semanas depois.
Tudo isso culminou com o dia 8 de agosto, data da estreia na Ligue 1. Em casa, o Auxerre recebeu o Sochaux, e Fernandez optou por mandar a campo uma formação com cinco peças no meio de campo. Dudka e Pedretti protegiam a defesa, enquanto Oliech, Chafni e Birsa circulavam Contout, o homem mais adiantado do time.

A opção de Fernandez, porém, não foi páreo para marcação adiantada da equipe de Francis Gillot, que se aproveitou das várias hesitações defensivas do Auxerre para vencer o jogo por 1 a 0, gol de Sverkos. Os anfitriões chegaram a empatar com Oliech, que estava em posição irregular e viu a jogada ser invalidada pela arbitragem.
Nos jogos seguintes, contra Lens e Lyon, Fernandez tentou reajustar a rota com novas peças no time titular. Promoveu a entrada de Niculae no ataque e inseriu N’Dinga no meio-campo, mas nada disso adiantou e o AJA acumulou outras duas derrotas: por 2 e 3 a 0, respectivamente. Após três rodadas, a lanterna era o que restava ao Auxerre, que precisava reagir e, principalmente, começar a marcar gols.
A arrancada positiva
Depois de empatar com o caçula Boulogne na 3ª rodada, o Auxerre teria pela frente uma sequência de jogos contra equipes com cenários semelhantes ao seu: adversários que começaram a temporada tropeçando. A começar pelo Nice, que já tinha na época nomes como Ospina, Mounier e Loïc Rémy, mas que iniciou a Ligue 1 com um empate, uma derrota e uma vitória. Depois viriam Saint-Étienne e Grenoble, que eram os “companheiros” de zona de rebaixamento.

Para a partida contra o Nice, Fernandez ganhou um reforço importante. Recuperado de uma lesão no tornozelo, Jeleń voltou ao time e pôde, enfim, estrear na temporada. No ano anterior, o polonês marcou 14 gols e foi o principal goleador da equipe. E mesmo sem marcar, o atacante foi importantíssimo para o primeiro gol do AJA na temporada. Aos 31 minutos, ele brigou por uma bola quase perdida na linha de fundo, deu um balão pro alto para evitar a saída e, ao término da jogada, Hengbart, de voleio, marcou. Na etapa final, o mesmo Hengbart serviu Niculae, que deu números finais à partida que ficou marcada pela primeira vitória na temporada.
Foi o start de uma série invicta que se estenderia por mais oito jogos. Após o 2 a 0 sobre o Nice, veio um empate com o Saint-Étienne e uma impressionante sequência de sete vitórias consecutivas. Grenoble, Rennes, Bordeaux, Lille, Montpellier, Le Mans e Monaco foram os algozes dessa série que alçou o Auxerre para a liderança da Ligue 1 após 14 rodadas. Foi a primeira vez que o time chegou ao topo da tabela desde fevereiro de 2003.
Durante esse período, o AJA ganhou cara de time, com peças fundamentais em todos os setores. A linha defensiva, com Hengbart, Coulibaly, Mignot e Grichting, quase não era mexida. Quando eles falhavam, Sorin estava na meta para salvar. E do meio pra frente, Chafni era o ponta desequilibrante pela direita, abastecendo a eficiente dupla Jeleń e Niculae. Mas um nome se sobressaía: Benoît Pedretti.
O experiente meio-campista, com passagem pela seleção francesa no começo da década, era o cara das bolas paradas e a referência técnica do time. Na série de sete vitórias em sequência, marcou duas vezes e deu uma assistência. No 1 a 0 sobre o Rennes, na 8ª rodada, ele ainda quebrou uma marca ao anotar o primeiro gol de falta do Auxerre em três anos na Ligue 1.
Nova instabilidade
Após a impressionante sequência de vitórias, o AJA voltou a oscilar. A derrota em Paris, para o PSG, significou a perda da liderança e o início a uma série de cinco tropeços seguidos: duas derrotas e três empates. Essa instabilidade foi encerrada em grande estilo, no último compromisso de 2009, diante do então vice-líder Olympique de Marseille, no Vélodrome.
A maré começou a favor do Auxerre quando, em meia hora, Didier Deschamps precisou gastar duas das três alterações das quais tinha direito. Bonnart e Lucho González se contundiram e foram sacados para as entradas de Kaboré e Abriel, respectivamente. A situação só não ficou melhor porque um raro gesto de humildade impediu que o OM tivesse Baky Koné expulso. Ele trombou com Birsa na intermediária e o árbitro Philippe Malige enxergou uma cotovelada, dando cartão vermelho ao atacante do Marseille. O próprio Birsa disse ao árbitro que foi apenas um esbarrão e a advertência foi retirada.
A nobre atitude de Birsa parece ter sido recompensada nos pés de Dennis Oliech. O queniano, que não marcava há mais de um ano, fez dois gols, um em cada tempo, e deu ao AJA o desejado presente de Natal a dois dias da chegada do bom velhinho.
A vitória sobre o OM, em pleno Vélodrome, foi o gás que o time precisou para começar 2010 com o pé direito. Somando os compromissos pela Copa da França, o AJA ficou invicto em janeiro, com três vitórias e um empate pela Ligue 1 e uma vitória e um empate – com vitória nos pênaltis – na Copa.
O último grande baque
Se janeiro foi recheado de bons resultados para Fernandez e companhia, fevereiro começou com um duro e inesperado golpe. Pela 23ª rodada, o Auxerre visitou o lanterna Grenoble, que tinha apenas 7 pontos até então, num jogo que parecia ser de vitória protocolar. Dentro das quatro linhas, porém, não foi isso o que aconteceu.
O Grenoble, que tinha feito apenas nove gols até aquele momento na temporada, foi para o intervalo com um inacreditável 4 a 0 de vantagem sobre uma das defesas mais rígidas da competição. Ljuboja, Matsui e duas vezes Akrour impuseram essa diferença no marcador ainda no primeiro tempo. Na etapa final, Matsui marcou o quinto e decretou uma humilhante goleada por 5 a 0 ao então vice-líder do Francês.
Mas guardem bem essa derrota. Ela foi apenas a penúltima do Auxerre naquela Ligue 1. Dali pra frente vieram quatro vitórias consecutivas: Rennes (1 a 0), Lille (2 a 1), Valenciennes (1 a 0) e a última sobre o atual campeão, e um dos favoritos ao título, Bordeaux (2 a 1). “No segundo tempo, tivemos dificuldades em todas as áreas do jogo e oferecemos contra-ataques a um time que adora isso. A vitória foi merecida”, resumiu Laurent Blanc, técnico do Bordeaux, após o revés em casa. A vitória do AJA foi de virada, com dois gols de Jeleń na etapa final.

O triunfo sobre os Girondins, pela 25ª rodada, foi um recado claro: o Auxerre estava na briga pelo troféu. O Bordeaux seguia na liderança, com 52 pontos, mas o AJA vinha duas posições abaixo e um ponto atrás. Entre os dois estava o surpreendente Montpellier, que tinha a mesma pontuação dos Girondins, mas uma partida a mais. “Celebramos a vitória, que era inesperada antes do jogo. Dissemos para nós mesmos ‘não temos nada a perder’”, comentou Fernandez, ao ser questionado sobre as chances de título.
Na semana seguinte, o Auxerre teve outro confronto direto pelo caminho, desta vez contra o Montpellier, que era o time que o separava do Bordeaux. Só que o jogo no Stade de la Mosson já teria um componente extra de tensão. No confronto do turno, que terminou com vitória do AJA por 2 a 1, Tino Costa foi expulso com dois cartões amarelos após duas faltas em Pedretti. Após o apito final, o presidente do MHSC, Louis Nicollin, utilizou termos homofóbicos para ofender o jogador adversário e ainda disse que “cuidaria dele no la Mosson”. Nicollin foi suspenso por dois meses por conta dessa declaração.
Desta vez, sem grandes confusões, Montpellier e Auxerre ficaram no empate por 1 a 1. Tino Costa, personagem da partida do turno, fez o gol de empate dos anfitriões. O ponto foi festejado pelo AJA, que conseguiu compensar na rodada seguinte com uma suada vitória em casa sobre o Le Mans, por 2 a 1, com Pedretti fazendo o gol da vitória aos 48 do segundo tempo.
Aqueles três pontos serviram pra mostrar que uma das grandes chaves do AJA de Fernandez era a força mental. A dez rodadas do fim, 41% dos gols do time tinham saído nos últimos 15 minutos das partidas. “Enquanto a mente e as pernas estiverem bem, tenho certeza de que podemos ir longe”, previa o lateral Cedric Hengbart.
A briga aquece
Em meio a corrida pela taça da Ligue 1, o AJA se despediu da Copa da França. Em casa, mas com portões fechados, o Auxerre não saiu de um 0 a 0 modorrento com o PSG e deu adeus ao torneio na disputa por pênaltis. No fim das contas, uma ocupação a menos na cabeça, enquanto a briga pelo título francês ficava cada vez mais acirrada e com todo mundo trocando pontos nas primeiras colocações.
Após a 30ª rodada, três pontos separavam o líder Bordeaux do 6º colocado Marseille. A vantagem dos dois pros demais oponentes eram as duas partidas a menos que tinham naquele estágio da temporada.
E depois de acumular empates com Monaco e PSG, o Auxerre voltou a engatar uma sequência de vitórias antes de um duelo que prometia ser decisivo contra o Olympique de Marseille, na 35ª rodada. Nancy, Lorient e Toulouse foram batidos pelo AJA, que estava determinado a brigar pelo continente. “Podemos terminar em segundo, mas também em sexto. E terminar em sexto lugar seria uma decepção. No início da temporada, teríamos assinado imediatamente. Mas agora, pelo menos, queremos jogar a Liga Europa”, disse Fernandez após a goleada sobre o Lorient, por 4 a 1.
No dia do encontro com o OM, cinco pontos separavam as duas equipes que ocupavam as duas primeiras posições. A conta pro Auxerre era simples: vencer para cortar distância e pelear até a rodada final. Só que o Marseille, de Didier Deschamps, carregava longa invencibilidade de três meses.
Os mais de 20 mil torcedores que foram ao Abbé Deschamps representaram ao Auxerre o maior público da temporada e presenciaram um jogo tenso e de poucas chances de gol. As principais foram do OM. Aos 20 minutos da etapa inicial, Lucho passou da bola num passe rasteiro de Valbuena e perdeu o gol com a trave aberta. Na etapa final, foi Brandão quem finalizou para fora após tabela com Niang, aos 21. O AJA insistiu com Jeleń, mas incomodou pouco a meta de Mandanda.
Com isso, o 0 a 0 se manteve com um gostinho de vitória para os visitantes, que viam o título cada vez mais próximo.
O golpe de misericórdia ao sonho do título veio na semana seguinte. Fora de casa, diante do Lyon, o Auxerre perdeu de virada por 2 a 1 e bastou ao Marseille derrotar o Rennes para erguer o troféu. Para piorar a situação, o Lille bateu o Toulouse e, junto do OL, ultrapassou o time de Fernandez, que começou a ver a campanha europeia também se distanciar.
Depois de engatar sequências de invencibilidade e mostrar pra França o melhor de Pedretti, Birsa, Niculae e Jeleń, o AJA parecia derreter diante da pressão para confirmar uma classificação continental. Prova disso veio na rodada seguinte, em um empate sem gols jogando em casa com o Lens, num resultado mal recebido pelo torcedor, que vaiou o time após o jogo, mesmo com a confirmação de que a equipe jogaria, no mínimo, a Liga Europa. Tudo ficou em aberto para a partida final.
Naquele momento, o Auxerre estava fora do top-3, que era a zona de classificação para a Liga dos Campeões. Além do campeão Marseille, o Lille e o Lyon estavam conseguindo as vagas. O AJA se viu forçado a vencer e torcer pelo tropeço de qualquer um dos dois.

Precisando do resultado diante do Sochaux jogando fora de casa, o Auxerre tratou logo de abrir o placar, com Hengbart, aos 6 minutos, e jogou a pressão para Lille e Lyon. Os Dogues conseguiram fazer o primeiro gol aos 33 minutos minutos, mas cederam o empate ao Lorient antes do fim do primeiro tempo. O OL, que recebia o Le Mans, não conseguiu marcar. Quando os três jogos foram para o intervalo, Auxerre e Lille estavam se classificando.
O segundo tempo, porém, reservou a maior carga de dramaticidade. Logo no começo da etapa final no Gerland, Bafé Gomis abriu o placar para o Lyon, carimbando a classificação lyonnais. Instantes depois, Brown Ideye marcou pro Sochaux em cima do Auxerre e ajudava o Lille, que tomaria a virada na metade do segundo tempo. O OL fez mais um e deixou toda a briga reservada para AJA e Dogues.
O empate não era suficiente para o Auxerre mesmo com a derrota do Lille. Era preciso vencer o jogo. E essa vitória heróica veio aos 45 minutos do segundo tempo, num toque de inspiração de Jean Fernandez. Aos 31, ele sacou Berthod e colocou em campo Maxime Bourgeois. O ponta esquerda de apenas 19 anos tinha jogado somente duas vezes naquela Ligue 1, sendo a última vez na 21ª rodada, contra o Nice, quando ficou somente seis minutos no gramado.
Bourgeois, porém, foi o pingo de inspiração que levou o Auxerre à glória. No minuto final da partida, ele ficou no mano a mano com o marcador no flanco esquerdo, levou a bola para a linha de fundo e jogou na área. No desespero, todo mundo estava lá pra cabecear, incluindo Cedric Hengbart. O lateral direito esperava a pelota no segundo poste e a espera não foi em vão. A bola foi ao seu encontro, ele testou pro chão, no canto baixo do goleiro adversário, marcando o gol que confirmou a classificação do AJA para a Liga dos Campeões do ano seguinte.
As palavras do Eurosport no relato da partida definem o que foi o sentimento ao apito final no Stade Bonal. “Jean Fernandez correndo em campo. Essa imagem ficará para os anais da Ligue 1. Normalmente reservado e tímido, o ex-treinador do OM deixou sua alegria explodir durante o apito final”. Cortejado pelo Bordeaux, que perderia Laurent Blanc para a seleção francesa semanas depois, Fernandez anunciou após a classificação que honraria o contrato e treinaria o Auxerre na Liga dos Campeões.
A vaga europeia foi uma premiação a um elenco valente e que se encaixou de maneira única ao longo da temporada. “É motivo de orgulho e uma enorme satisfação ter levado Auxerre tão longe. Não esperávamos muito, é gratificante. Obviamente devemos isso a nós, mas também às equipes com grandes orçamentos que não tiveram sucesso: Bordeaux, Rennes, Monaco e Paris careciam de consistência. Eles deveriam estar na nossa frente. Nosso terceiro lugar é quase anormal”, analisou Pedretti, outra das referências do elenco de Fernandez.
Ascensão e queda
Ainda no embalo das noites mágicas da temporada 2009/10, o Auxerre ingressou no novo ano do calendário do futebol francês disposto a manter o ritmo surpreendente. Mas logo percebeu que dividir as atenções entre a Ligue 1 e a Liga dos Campeões não seria nada fácil.
Classificado em 3º lugar, o AJA precisou encarar a fase prévia do torneio europeu. Então, as duas primeiras partidas do Francês, contra Lorient e Brest, serviram como aquecimento para o que viria adiante, contra o Zenit. O time russo, treinado por Luciano Spalletti, conservou uma parte da base campeã da Liga Europa dois anos antes, com peças como o goleiro Malafeev e o meia Denisov, e se reforçou com atletas como zagueiro Bruno Alves e os atacantes Kerzhakov e Lazović. O Auxerre, pelo contrário, tinha basicamente a mesma formação do ano anterior. A única novidade foi Anthony Le Tallec, atacante que surgiu como uma promessa no futebol francês, foi parar na Inglaterra e foi contratado após destaque na segunda divisão local.
Com esse cenário, o favoritismo parecia mesmo ser dos russos, que fizeram valer o fator casa na partida de ida. De cabeça, Kerzhakov fez o solitário gol do jogo, logo aos 2 minutos de bola rolando. O placar mínimo se sustentou até o segundo final e passou ao Auxerre de que, sim, era possível progredir.
O que se viu na volta, em Abbé Deschamps, foi um recital de Benoît Pedretti. Em duas cobranças de escanteio do maestro da equipe saíram dois gols. O primeiro foi de Hengbart, o lateral herói que levou o time para a Champions. O segundo escanteio foi na cabeça de Coulibaly, que escorou para Jeleń, outra referência da equipe, que marcou num chute acrobático.
O Zenit ainda teve dois jogadores expulsos, incluindo o goleiro Malafeev, e não teve forças para derrubar um gigante Auxerre, que reverteu a vantagem russa e carimbou o passaporte para a fase de grupos da Champions, onde teria pela frente três campeões europeus: Ajax, Milan e Real Madrid.
Como era de se esperar, o time francês não fez frente a esses grandões, mas pode proporcionar ao seu torcedor noites mágicas contra grandes craques. Afinal de contas, o Milan tinha Ronaldinho, o Real Madrid era a equipe de Cristiano Ronaldo, Kaká e do recém chegado Benzema, enquanto o Ajax, um pouco menos badalado, era a casa de Luis Suárez.
O Auxerre chegou a vencer os holandeses, por 2 a 1, na 4ª rodada, o que deu uma pequena esperança de pegar a vaga na Liga Europa. Mas esse sonho chegou ao fim após tomar quatro do Real Madrid, no Santiago Bernabéu. A campanha acabou com cinco derrotas e uma vitória.
Enquanto sonhava com a Europa, o AJA apanhava em solo doméstico. Era apenas o 13º colocado do Francês, com 20 pontos, e não conseguiu muito mais do que isso até o fim da temporada. Terminou em 9º lugar, longe de qualquer disputa continental, mas perto das turbulências internas.
Na temporada seguinte, um grupo de lideranças ligadas ao ex-presidente Jean-Claude Hamel, incluindo o lendário técnico Guy Roux, tomou o poder em eleições polêmicas, que foram parar na justiça. Gérard Bourgoin passou a tocar o clube, que entrou em franco declínio dali em diante. Jean Fernandez saiu, Jeleń, Pedretti e outros titulares também e Bourgoin se viu no olho do furacão. Contratou Laurent Fournier como técnico e o demitiu na reta final da temporada, sendo esta a primeira demissão de treinador durante uma competição na história do clube. Não restou outro destino que não fosse a quebra da sequência de 13 anos na elite e um rebaixamento para a Ligue 2, dois anos depois de alcançar sonhos inimagináveis.
Desde então, o Auxerre apareceu mais na segunda divisão do que na primeira. E para os torcedores, a sensação que fica é de que os meses da temporada 2009/10 foram os últimos grandiosos de um clube valente e que, durante algum tempo, se acostumou a bater de frente com os grandões do país.


