A temporada 2011/2012 do Campeonato Francês teve inúmeros ingredientes que a tornaram inesquecível. Foi a primeira do Paris Saint-Germain com investimento forte do Qatar e a última de Eden Hazard com a camisa do Lille. Foi também a temporada de despedida de Didier Deschamps do futebol de clubes. Após o término do campeonato e da frustrante Eurocopa, ele trocou o Olympique de Marseille pela seleção francesa.
Mas aquela temporada foi mais inesquecível ainda para o Montpellier. O clube da cidade homônima, no Sul da França, viveu meses mágicos, onde bateu de frente com as principais forças do país e colocou no seu mural um troféu inédito. Um dos jogos marcantes da campanha foi um empate contra o poderoso PSG, pela 24ª rodada, num confronto de reviravoltas e gols no fim.

Recordamos aquela partida a partir de agora:
Líder versus vice-líder
Após 23 rodadas, Paris Saint-Germain e Montpellier disputavam protagonismo na Ligue 1 e eram os principais postulantes ao troféu. O MHSC, treinado por René Girard, começou a temporada com o pé no acelerador e virou líder logo na 3ª rodada, após uma vitória sobre o Rennes. Entretanto, tropeços seguidos contra Toulouse e Évian, nas rodadas 18 e 19, deram ao PSG a chance de assumir a dianteira na virada de 2011 para 2012.
Foi nessa época também que o Paris optou por fazer uma troca no comando técnico. Antoine Kombouaré, remanescente da “era pobre” do clube, foi demitido com a equipe na liderança do Francês. Mesmo no topo, o time fez um 1º turno de muita oscilação e a impressão era de que não estava à altura do desafio. Para seu lugar, veio o experiente Carlo Ancelotti.
O italiano iniciou bem a trajetória em solo francês e chegou invicto para o decisivo duelo diante do Montpellier, no dia 19 de fevereiro. Havia vencido Toulouse, Brest e Évian e empatado com o Nice na rodada anterior.
Times mexidos
Vindo de um empate sem gols com o Nice na rodada anterior, o PSG teve apenas uma alteração para o decisivo duelo diante do Montpellier. Ancelotti sacou Mathieu Bodmer e lançou Blaise Matuidi para completar o meio-campo que já tinha Thiago Motta e ‘Momo’ Sissoko. O italiano se mantinha adepto do “esquema árvore de Natal”, que o tornou famoso nos tempos de Milan, e completou a formação com Sirigu, Bisevac, Alex, Sakho e Maxwell na defesa, Ménez e Nenê na criação e Gameiro no ataque.
Já o Montpellier veio com três alterações na comparação com a boa vitória por 3 a 0 sobre o Ajaccio. Hilton, voltando de contusão, Saihi e Camara entraram nas vagas de Stambouli, Marveaux e Cabella. O goleiro Jourdren, os defensores Bocaly, Yanga-Mbiwa e Bedimo, os meio-campistas Estrada e Belhanda e os atacantes Utaka e Giroud completaram a escalação.

Visitante indigesto
Mesmo atuando fora de casa, o Montpellier não se intimidou em momento algum com o PSG. Nos primeiros dez minutos, adiantou a defesa, trocou passes no campo de ataque e não deu qualquer espaço pros anfitriões. Em duas ocasiões, inclusive, ficou perto de marcar o primeiro gol.
Logo no minuto inicial, Bedimo escapou pela esquerda e cruzou por baixo, buscando Giroud. O camisa 17 dividiu a bola com Maxwell, que conseguiu mandar pela linha de fundo. Sete minutos mais tarde, Belhanda enfileirou marcadores na intermediária e lançou Utaka na esquerda. O nigeriano invadiu a grande área e chutou colocado, na direção de Sirigu, que rebateu para frente. A bola foi ao encontro de Giroud, que finalizou de primeira e, desta vez, o goleiro italiano conseguiu segurar.
Após o susto, o PSG conseguiu equilibrar a partida graças a dupla Nenê e Ménez. Os dois se descolaram da marcação e conseguiram encontrar os espaços que antes não surgiam. Esse movimento fez com que o Paris, enfim, criasse a primeira chance de gol aos 23 minutos. Nenê tentou passe na entrada da área, a bola desviou e foi nos pés de Gameiro. O camisa 19 encheu o pé, forçando Jourdren a fazer boa defesa.

Sete minutos depois, Gameiro teve mais uma chance. Uma roubada de bola na saída de jogo do MHSC fez com que o atacante recém-contratado junto ao Lorient fosse lançado em velocidade e arriscasse um chute forte, que dessa vez, foi por cima do alvo.
O equilíbrio da partida fez com que as faltas começassem a aparecer. Algumas mais duras. Em um intervalo de dois minutos, Saihi e Sakho foram amarelados por Tony Chapron. Já aos 40, foi a vez de Yanga-Mbiwa derrubar Nenê na intermediária, quando o brasileiro escapava em velocidade, em direção a grande área.
A falta, que aparentava não levar perigo, terminou num gol inesquecível para Alex. O zagueiro brasileiro, que vinha levando a melhor na maioria dos cortes tentados na defesa, se apresentou para cobrar o tiro livre. A jogada ensaiada foi simples: Nenê deu um rolinho simples na bola e o defensor encheu o pé. A curva que a pelota fez impressionou. Ela ameaçou ir para um lado, mas foi pro outro. Jourdren ficou vendido e a bola estufou as redes do Montpellier.
Golaço, que naquele momento, fazia o Paris abrir quatro pontos no topo da tabela.
O valente Montpellier, porém, não se intimidou. Mesmo que o ritmo do começo do jogo tenha caído, não foi o gol que fez a equipe de René Girard arrefecer. Na última volta do ponteiro do relógio antes do intervalo, um escanteio teve um desfecho inesperado.
A bola foi alçada na grande área, a zaga do Paris cortou parcialmente e o rebote foi parar nos pés de Hilton. O zagueiro, que subiu pro escanteio pensando em cabecear a pelota, teve o refinamento para devolver para área com um tapa caprichoso de pé esquerdo. A defesa parisiense demorou a sair e Belhanda se infiltrou no meio de todo mundo. O marroquino cabeceou forte, Sirigu tocou nela, mas sem força suficiente para evitar o gol de empate do Montpellier no lance final do primeiro tempo.
Segundo tempo perde ritmo
A etapa inicial de muita disputa e boas chances deu lugar a um segundo tempo nervoso, de muitos erros. Afinal, a conta era simples: o empate não era ruim pra ninguém, mas a derrota seria catastrófica. Pro Montpellier, então, perder era ver o líder abrir quatro pontos, sem um confronto direto pela frente.
Com tanto nervosismo, as chances rarearam. O Montpellier tentou aos 4 minutos, em uma falta cobrada por Belhanda, que foi por cima do gol. Já o Paris, dois minutos depois, incomodou num chute cruzado de Maxwell, que foi direto para fora.

O tempo avançava e ficava claro como o conjunto do Montpellier estava melhor formado do que o do Paris, ainda em princípio de trabalho de Ancelotti. O time de Girard usava muito as laterais, aproveitando a ofensividade de Bocaly e Bedimo. Utaka e Camara faziam boas combinações com os alas e tudo era potencializado por Giroud e Belhanda.
O PSG, em compensação, tinha um jogo muito truncado. O meio-campo não se conectava com os homens de frente, e como Bisevac, o lateral direito, era zagueiro de origem, o ataque só tinha reforço pelos lados quando Maxwell subia ao ataque. Com tanta dificuldade para criar, as câmeras da TV não faziam outra coisa que não fosse buscar Javier Pastore, principal contratação do clube para temporada, mas que estava no banco de reservas.
O argentino só saiu da suplência aos 31 minutos, entrando no lugar de Sissoko. Foi a última mexida de Ancelotti, que já tinha lançado a campo Gameiro e Lugano – esse por obrigação, já que Alex saiu contundido.
A óbvia, mas tardia mexida de Ancelotti deu resultado. Pastore entrou querendo jogo e, enfim, houve conexão do meio-campo com o ataque. Aos 32 minutos, o argentino teve sua chance, mas parou em Jourdren. Hilton saiu jogando errado e Nenê lançou Hoarau, que foi esperto e logo tocou rasteiro para o camisa 27. O tapa colocado de Flaco foi bloqueado pelo goleiro.
Novo pique no fim
Após mais de meia hora de morosidade, o jogo ganhou novo ritmo nos últimos minutos. E o Montpellier, que já tinha mostrado que não pecava por falta de ousadia, deu um duro golpe no milionário PSG. Aos 37 minutos, Belhanda foi ao fundo pela esquerda e cruzou com muita força. A bola atravessou toda a extensão da grande área e parecia destinada a sair pela linha lateral. Giroud deu um pique, evitou a saída e teve espaço para jogar na área. A bola encontrou a cabeça de Utaka, que apareceu nas costas de Lugano para cabecear pro chão, vencer Sirigu e virar a partida, mexendo na classificação: o MHSC era o novo líder.
A cena do zagueiro uruguaio, espantando, vendo o camisa 7 do Montpellier livre, cabeceando para o gol, foi o retrato da passagem de Lugano pelo PSG, que só jogaria mais duas vezes naquela edição da Ligue 1.

O gol forçou o Paris a correr dobrado. Como dito acima, o empate não era ruim, mas a derrota era um duro golpe. Ainda mais para Ancelotti, que pegou o time de Antoine Kombouaré na liderança. Perdê-la num confronto direto não era o desejado.
Então, o talento apareceu. Aos 43 minutos, Pastore recebeu na entrada da área e deu um tapa no fundo para Ménez. O giro que ele deu em Yanga-Mbiwa desconcertou o zagueiro, que nem viu por onde o camisa 7 passou. Sem ângulo pro chute, o meia-atacante tocou pro meio da área. Ali estava o predestinado Hoarau. Herói do título da Copa da França no ano anterior, o camisa 9 esticou a perna e desviou para o fundo das redes, igualando o marcador e deixando a liderança na capital.
O gol de Hoarau renovou o ânimo do Paris, que por pouco não virou. No lance seguinte ao tento, Pastore tocou no fundo para Maxwell, pela esquerda, que invadiu a grande área e, mesmo sem ângulo, tentou o chute. A bola foi na rede pelo lado de fora. Foi o ato final de um jogo quente, com quatro gols, mas que não mexeu na tabela de classificação.
O 2 a 2 manteve o Paris na ponta, mas não por muito tempo. Na rodada 25, o PSG empatou em 4 a 4 com o Lyon e perdeu a liderança, que foi recuperada na semana seguinte, mas entregue na 30ª volta do campeonato, quando o Montpellier, que bateu de frente com o milionário time da capital, chegou no topo para não sair mais e faturar um título inédito.
O empate no Parque dos Príncipes foi, certamente, um dos capítulos mais marcantes daquela campanha de um time valente, que não se intimidou diante de um rival muito mais poderoso.


