Bordeaux e Denílson: uma história que não terminou em show

A França sempre foi um país aconchegante para jogadores brasileiros. Juninho, Cris, Raí… Não é preciso ir muito longe para lembrar de atletas tupiniquins que brilharam nos gramados gauleses. Mas na mesma medida que teve quem se deu bem, teve muita gente que não foi tão feliz assim.

É o caso de Denilson. Campeão mundial com a seleção brasileira em 2002, ele tentou engatar uma sequência positiva no Bordeaux para disputar a Copa do Mundo seguinte. O desempenho irregular, porém, fez com que deixasse o clube após uma única temporada.

Resgatamos a passagem do brasileiro pelos Girondins. Confira:

Chegada na França

Era verão de 2005 e Denilson estava cansado do clima da Andaluzia. O Real Betis não o tratava como gostaria. O brasileiro, que praticamente ‘anexou’ ao seu nome a palavra “Show”, tinha no currículo o título mundial de 2002 pela seleção brasileira e esperava ter status elevado em solo espanhol. Sem ser atendido, viu no Bordeaux uma chance de resgatar a carreira que não decolou nos sete anos em que defendeu os Verdiblancos.

Jean-Louis Triaud, presidente do clube na época, teve papel primordial nessa história. Foi ele quem colocou o Bordeaux como interessado no meia-atacante e deu a letra para Denílson falar a mesma língua: ligue para Sávio. Dois anos antes, o ex-atacante do Real Madrid e do Flamengo vestiu a camisa dos Girondins por empréstimo dos Merengues e foi só elogios ao clube.

Naquele momento foi aberta a porta de entrada para Denílson se tornar jogador do Bordeaux na temporada 2005/06, em negociação que foi concretizada em 28 de agosto.

Ao lado de Triaud, Denilson recebeu a camisa 22 do Bordeaux

Primeiras impressões

Dono da camisa 22, o pentacampeão mundial debutou pelos Girondins na 5ª rodada do Campeonato Francês, saindo do banco de reservas no empate sem gols diante do Strasbourg. Denilson jogou apenas oito minutos e não deu muitas amostras de seu potencial, o que acabaria acontecendo na partida seguinte.

Sem hesitar, Ricardo Gomes, técnico do time na época, o escalou como titular contra o Lens, no Felix-Bollaert. E foi exatamente dos pés de Denílson que começou a jogada do primeiro gol da partida: praticamente do meio-campo, ele lançou Smicer na ponta esquerda. O tcheco finalizou cruzado, o goleiro desviou, a bola foi na trave e caiu no pé direito de Chamakh, que balançou as redes. A partida, para infelicidade do camisa 22, terminou empatada por 1 a 1, mas ao menos ele deixou boa impressão.

Mas parou por aí.

Até o fim do turno, Denílson alternou entre titularidade e reserva, sem despertar nenhum brilho no olhar do torcedor do Bordeaux. O 3º lugar ao término das primeiras 19 rodadas tinha outros protagonistas, como Marouane Chamakh, Jean-Claude Darcheville e Julien Faubert e o campeão mundial foi só mais um no time de Gomes. A meta de disputar a Copa do Mundo do ano seguinte, na Alemanha, ia virando utopia.

Os escassos gols

Precisou chegar 2006 para Denílson desencantar pelo Bordeaux. Ainda assim, os gols foram escassos: apenas três. O primeiro deles foi em cima do Monaco, na 22ª rodada, quando os Girondins venceram por 1 a 0. Na 27ª, no 2 a 0 sobre o Ajaccio, ele voltou a balançar as redes com um belo gol por cobertura.

O gol que lhe colocou na história, porém, foi marcado no dia 25 de março, contra o Nice. A bola nem bem começou a rolar no Chaban-Delmas, pela 32ª rodada, e 11 segundos depois o brasileiro já tinha ido às redes. Foi o gol mais rápido da história do Bordeaux, um dos mais rápidos do Campeonato Francês – Michel Rio, do Caen, é o recordista com um gol após 7 segundos em 1992.

Denílson ainda deixaria os torcedores levemente apaixonados na 37ª rodada contra o Le Mans, quando o Bordeaux jogou pela última vez em casa naquela temporada. Os Girondins empataram por 2 a 2, mas o brasileiro deixou sua marca com uma jogada de efeito. Ele recebeu a bola na intermediária, cortou pro meio e deixou Davide Chiumiento para trás. O suíço, não satisfeito, continuou correndo atrás do camisa 22 e o encurralou na linha de fundo. Atrevido, Denílson puxou a bola com o pé esquerdo, elevou-a e deu uma espécie de chapéu no adversário. Um lance plástico que arrancou aplausos da torcida.

Fim frustrante

‘Apesar dos pesares’, o Bordeaux poderia se considerar o “campeão dos mortais”. O Lyon, ainda na série do heptacampeonato, ergueu o troféu com sobras. Somou 84 pontos, 15 de vantagem para o time de Denílson, que ficou com o vice-campeonato.

O brasileiro, porém, não ficou para jogar a Liga dos Campeões no ano seguinte. Apesar de ter se transferido em definitivo ao Bordeaux, o contrato que assinou era válido por apenas uma temporada. O salário era boa parte bancado pelo Real Betis, fruto do acordo na hora da rescisão. Os Girondins não nadavam na grana na época e não puderam arcar com o salário do pentacampeão mundial no ano seguinte, que migrou para o futebol saudita.

No fim, ficou a frustração de todas as partes. Do Bordeaux, por não ter visto o melhor de Denílson, e também do brasileiro, que não deu os shows que garantia e anos depois admitiu ter se arrependido de não ter ficado na França.

“Quando anunciei que deixaria o Bétis, o Bordeaux foi o primeiro clube a se posicionar. Tive uma longa discussão com Sávio, que me recomendou o clube. Ele só me contou coisas boas sobre o Bordeaux e, acima de tudo, mencionou um detalhe muito importante: a atenção que o clube prestava aos seus jogadores, mas também todo o carinho e respeito em todos os estágios. Todas as condições ideais estavam lá para fazer você se sentir bem. Eu tive apenas um arrependimento ao longo da minha carreira: não ter ter renovado meu contrato com os Girondins, porque, eu repito, fui muito feliz na França”, declarou anos mais tarde ao Sud-Ouest.

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