Os anos 90 foram muito traumáticos para os franceses quando o assunto era Copa do Mundo. Antes de erguer o troféu em 1998, os Bleus sequer viajaram para as disputas na Itália, em 90, e Estados Unidos, em 94. E isso se refletiu na base também.
Na categoria Sub-17, o país não participou de nenhuma edição do Mundial nos anos 90. Já a Sub-20 ficou fora das edições de 1991, 93 e 95, e quando enfim se classificou, falhou com uma geração incrivelmente talentosa e treinada por um experiente técnico.
Na Copa do Mundo que teve Riquelme, Aimar, Alex, Nakamura e Owen, a França pousou na Malásia, país sede do Mundial, com Anelka, Trezeguet e Henry. Porém, como não se ganha nada na véspera, os Bleus não chegaram nem perto de beliscar a taça.
No quadro Times Memoráveis, relembramos aquela equipe que tinha tudo para erguer o troféu, reunindo uma lista incrível de talentos, mas ficou pelo caminho.
Cartão de visitas
A França conseguiu a classificação para o Mundial da Malásia graças ao título europeu Sub-18, conquistado no ano anterior. E naquele torneio, já veio o cartão de visitas de um time que prometia muito nas mãos de Gérard Houllier. O experiente técnico, de passagem de sucesso pelo PSG no fim da década de 80 e que a pouco havia comandado a seleção principal (sem tanto sucesso assim), tinha em mãos uma talentosa geração capitaneada pelo trio Henry, Anelka e Trezeguet.

Anfitriões do campeonato, os Bleus caíram em uma chave com Bélgica, Hungria e Portugal. De maneira invicta, os comandados de Houllier avançaram na liderança com vitórias sobre belgas e húngaros e um empate com os portugueses. Na época, apenas os campeões de cada grupo passavam para a final e os franceses encontraram a Espanha na decisão.
O jogo decisivo do campeonato teve um único gol, e ele saiu dos pés de um dos astros da companhia. Henry, que já somava partidas como profissional pelo Monaco, balançou as redes e deu aos Bleus o terceiro título europeu da categoria, o primeiro em 13 anos.
No ano seguinte, os Bleus embarcaram para a Malásia com um plantel bastante semelhante ao que ergueu o troféu europeu em 1996. Além do trio Henry, Trezeguet e Anelka (recém contratado pelo Arsenal junto ao PSG), o elenco tinha outras jovens promessas como o goleiro Mickaël Landreau, do Nantes, os defensores Willy Sagnol, do Saint-Étienne, Mikaël Silvestre, do Rennes, William Gallas, do Caen, e o meio-campista Peter Luccin, do Bordeaux, todos com rodagem entre os profissionais nos respectivos clubes.
Chuva de gols
O sorteio da fase de grupos colocou brasileiros, sul-coreanos e sul-africanos na chave francesa. O Brasil chegou ao Mundial como vice-campeão sul-americano, atrás apenas da Argentina, a exemplo da África do Sul, também vice no continente africano. A Coreia do Sul foi a única oponente dos Bleus que se classificou como campeã da qualificatória.
Apesar do respeito a ser pregado contra os rivais sul africanos e sul-coreanos, não era segredo para ninguém que Brasil e França ostentavam os rótulos de favoritos da chave. Por isso, a estreia, no dia 17 de junho, no Estádio Sarawak, soava mais como uma final antecipada para definir quem seria o líder do grupo.
Toninho Barroso era o técnico da seleção brasileira e seus principais talentos eram Alex e Athirson. O elenco ainda tinha outros nomes conhecidos, como o meia Pedrinho, o atacante Fernandão, além do lateral Paulo César e do atacante Adaílton, que anos mais tarde trilhariam caminhos pelo futebol francês.

O adversário vindo da América do Sul mostrou logo de cara aos franceses que conquistar aquele Mundial não seria simples como imaginado. Com 5 minutos de jogo, o placar já apontava 1 a 0 para o Brasil. Alex, o camisa 10 da Canarinho, enfileirou dribles na entrada da área e, num chute colocado, venceu Landreau, abrindo a contagem.
O placar só não ficou maior antes do intervalo por causa da falta de pontaria brasileira. Alex e Adailton tiveram chances claras na grande área, mas falharam no alvo. A França, em compensação, criou muito pouco. O já badalado Henry não conseguiu mais do que uma cabeçada sobre a meta, aos 14 minutos.
O cenário não se modificou na etapa final. Sem Alex, sacado no intervalo, Adailton assumiu a responsabilidade e criou as melhores chances de gol. Aos 16, ele completou cobrança de escanteio da direita e ampliou a vantagem.
Mesmo apagados em campo, Trezeguet e Henry criaram as melhores oportunidades francesas, mas falhando na hora da definição. David tentou um gol por cobertura aos 25, enquanto Thierry tentou um chute cruzado, já no minuto final. O único francês que balançou as redes foi Silvestre… Mas foi contra a própria meta. O 3 a 0 foi um duro golpe que praticamente condenou os Bleus à segunda colocação, que seria confirmada após tranquilas vitórias nas rodadas seguintes.
Contra a Coreia do Sul, no segundo compromisso pelo Mundial, a França abriu 3 a 0 em dez minutos, com dois gols de Henry e outro de Trezeguet, que ainda marcou o quarto na etapa final. Os sul-coreanos arrumaram dois gols com Park Jin Sub, mas não evitaram a derrota por 4 a 2. Nos dois jogos, Anelka virou reserva da dupla monegasca.
O placar se repetiu na partida final da fase de grupos, contra a África do Sul. Ali, um simples empate bastava para confirmar a classificação. Trezeguet, duas vezes, Henry e Luccin marcaram os gols dos Bleus, que avançaram para as oitavas de final para encarar o México, que foi o segundo colocado na chave da Inglaterra de Michael Owen.
Eliminatória dramática
O mata-mata chegou e a campanha francesa logo ganhou contornos dramáticos. A começar pela eliminatória contra o México, que foi decidida apenas no último lance da partida. Peter Luccin fez, aos 45 minutos do segundo tempo, o gol que classificou o time de Houllier para as quartas de final da Copa.
Na nova etapa, os uruguaios estavam pelo caminho. A seleção sul-americana avançou na liderança do Grupo A, com vitórias sobre Bélgica e Malásia e empate com Marrocos, e depois eliminando os Estados Unidos, num tranquilo 3 a 0.
O grande nome daquele time era Marcelo Zalayeta. Formado no Danúbio e recém negociado com o Peñarol, o atacante era uma das joias do futebol uruguaio e já somava três gols na Copa – dois no 3 a 0 sobre os estadunidenses.

Quem tinha mais gols do que ele era David Trezeguet, que chegou às quartas de final com quatro bolas nas redes. E foi dele o primeiro gol da partida. Oportunista, ele completou cruzamento na grande área e fez 1 a 0, aos 27 minutos da etapa inicial. O placar se sustentou até os 23 do segundo tempo, quando Nico Oliveira deixou tudo igual.
Até a bola parar de rolar, a França ficou desfalcada de Henry e Gallas. O atacante deixou o gramado para a entrada de Anelka, aos 31 minutos da etapa final. Já o zagueiro foi expulso a menos de cinco minutos para o fim do jogo. Não restou outro caminho a não ser o da marca do pênalti para definir o semifinalista.
Em uma longa disputa, com oito cobranças para cada lado, melhor para o Uruguai. Landreau e Anelka desperdiçaram seus tiros e a França deu precoce adeus ao sonho do título mundial. Os uruguaios avançaram para pegar Gana e depois ficaram com o vice, ao perderem para a Argentina.
Apesar do resultado frustrante, é possível dizer que aquele mundial plantou uma semente para o futuro dos Bleus. No ano seguinte, Henry e Trezeguet estavam no elenco campeão mundial com a seleção principal. Gallas, Silvestre, Sagnol e Anelka, com menos constância que os outros dois, também construíram suas trajetórias pela seleção e consolidaram suas carreiras fora da França. O Mundial de 1997, que mostrou ao mundo talentos como Riquelme, foi marcante também para os franceses, mesmo que o desempenho tenha ficado longe do ideal nas partidas de nível mais alto.



