Bordeaux aproveitou erros e derrotou o Bayern com autoridade em solo alemão

Não existe uma regra fixa que defina uma noite inesquecível dentro do futebol. Óbvio que um jogo que termine em título ou uma vitória em um clássico são as mais fáceis de entrarem na memória dos torcedores, mas a magia do esporte pode fazer com que uma partida de fase de grupos de uma copa entre para esse catálogo. Foi assim com o Bordeaux na temporada 2009/10.

Ainda respirando os ares do título francês da temporada anterior, quebrando a hegemonia do Lyon, que vinha de sete troféus consecutivos, o time treinado por Laurent Blanc estava voltando a uma Liga dos Campeões e disposto a fazer história. E não havia porque duvidar disso. O elenco estava reforçado com Carrasso, Ciani e Plasil, tinha os selecionáveis Diarra e Trémoulinas, o jovem goleador Chamakh e o craque Gourcuff, comprado em definitivo junto ao Milan.

Não haveria cenário melhor para mostrar esse valor do que em um grupo enrolado na Champions: os Girondins foram sorteados ao lado de Juventus, Bayern, além do Maccabi Haifa. O Bordeaux talvez fosse o que corresse por fora na chave, com os italianos e alemães mais a frente. Mas foi nesse contexto que Blanc e companhia se agigantaram e conseguiram construir uma vitória histórica em Munique, na 4ª rodada do Grupo A, encaminhando uma classificação, para muitos, impensada.

O Bordeaux, que na época vinha com uma campanha irretocável no Campeonato Francês – oito vitórias em 11 jogos – teve em Munique um resultado para afirmar a ótima fase.

Relembramos aquele jogo:

Campanha invicta

Se o desempenho na Ligue 1 era ótimo, os Girondins também não tinham do que reclamar do retrospecto na Champions League. Na primeira rodada, os comandados de Blanc arrancaram um empate por 1 a 1 com a Juventus – Plasil marcou o gol francês em aparente posição de impedimento. Já na rodada seguinte, Ciani, de cabeça, fez o gol da vitória sobre o Maccabi Haifa, aos 37 minutos do segundo tempo, num jogo mais difícil do que o previsto.

O primeiro encontro entre alemães e franceses foi no Chaban-Delmas, em 21 de outubro. Ambos somavam 4 pontos, mas foi o Bordeaux quem saiu daquela partida na liderança da chave. Com gols dos dois zagueiros, Ciani e Planus, em duas cobranças de falta na grande área, os Girondins venceram por 2 a 1 e chegaram aos 7 pontos.

Planus fez o gol da vitória do Bordeaux no jogo do turno – Foto: UEFA.com

Pro Bayern, o prejuízo ficou ainda maior, porque Müller e van Buyten foram expulsos e se tornaram desfalques para a partida que seria disputada duas semanas depois.

Os times

Sem motivos para mexer na equipe, Blanc repetiu a formação para o reencontro com o Bayern na Allianz Arena. Carrasso era o goleiro e tinha a proteção de Chalmé, Ciani, Planus e Trémoulinas. A cabeça de área tinha Diarra e Fernando, com Plasil e Wendel abertos. Gourcuff era o meia centralizado, atrás de Chamakh.

Já no Bayern, Louis van Gaal optou por Demichelis e Pranjic nas vagas dos suspensos van Buyten e Müller. Eles completaram o time que tinha ainda Butt no gol, Lahm e Braafheid nas laterais, Badstuber na zaga, van Bommel, Schweinsteiger e Tymoshchuk no meio-campo, além de Klose e Toni no ataque. Franck Ribéry, com uma lesão no joelho, estava fora de combate até dezembro, enquanto Arjen Robben, voltando do Departamento Médico, começou no banco de reservas.

Formação do Bordeaux contra o Bayern

Começo lento

Os primeiros 15 minutos de jogo foram morosos. O Bayern dominava a posse de bola, mas a controlava, principalmente, com passes entre zagueiros e volantes. O Bordeaux estudava o adversário e se posicionava do meio de campo para trás. Por isso, o único lance de perigo saiu de uma jogada fortuita. Logo aos 2 minutos, Braafheid estava encurralado na linha de fundo e cruzou para a área do jeito que deu. A bola encobriu Carrasso e bateu no travessão.

Passado o período de estudos, o time de Blanc começou a se soltar. Gourcuff, principalmente, passou a achar espaços entre a intermediária e a grande área. O camisa 8 parecia fazer a função de “falso 9”, numa época em que esse nome não era tão falado. Chamakh, o “9 de ofício” dos Girondins, buscava muito espaço pelo lado esquerdo e abria campo para o craque do time flutuar.

Neutralizado pelo time francês, o Bayern se apegava ao talento individual de seus principais jogadores. Um deles quase decidiu na bola parada. Aos 31 minutos, Schweinsteiger cobrou falta da intermediária e ia encontrando o ângulo direito de Carrasso. O goleiro voou bonito e fez uma defesa sensacional.

Só que a jogada não morreu na intervenção de Carrasso. A bola sobrou na esquerda e foi cruzada para Toni. O italiano escorou pro meio da área e a indefinição de Diarra e Carrasso deixou a pelota viva na pequena área. Como o volante não cortou e o goleiro não agarrou, Klose aproveitou e conseguiu finalizar. O gol só não aconteceu porque Ciani se atirou na frente da bola e bloqueou o chute.

No replay, a revelação: a bola finalizada por Klose bateu no braço esquerdo de Ciani. O árbitro português Pedro Proença não viu e assinalou apenas o escanteio. Em tempos pré-VAR, não havia o que fazer a não ser lamentar.

A corrida de Gourcuff

Uma jogada forte do Bordeaux de Blanc era a bola parada. Wendel era um ótimo cobrador de faltas e escanteios. De quebra, jogadores como Diarra, Ciani, Planus e o próprio Chamakh contribuíam na bola aérea. Um retrato disso foi o gol do título francês na temporada 2008/09: uma falta lateral cobrada por Gourcuff, achando Trémoulinas no fundo, que cruzou para Gouffran marcar de cabeça. Na Champions League que estava em disputa, todos os gols marcados até aquele dia saíram de jogadas assim.

E essa jogada tão forte abriu o caminho para a vitória em Munique. Aos 37 minutos, Wendel cobrou uma falta da intermediária direto na grande área, procurando Gourcuff. O camisa 8 passou por trás da defesa e cabeceou para o chão. A bola quicou e foi nas mãos de Butt, que reagiu mal: espalmou esquisito e não evitou o gol francês.

Gourcuff, de imediato, correu de maneira imponente para o banco de reservas para comemorar o gol com a comissão técnica. Uma imagem marcante daquela campanha.

A histórica corrida de Gourcuff após o gol em Munique – Foto: UEFA.com

Antes que a primeira etapa acabasse, Proença voltaria a ser protagonista do jogo. Faltando quatro minutos para o intervalo, Fernando ingressou na grande área e foi barrado por Braafheid. Não seria nada anormal uma marcação de pênalti, já que outras trombadas semelhantes, em diferentes partes do campo, foram marcadas. O português, porém, fez vistas grossas, talvez compensando a mão de Ciani, ignorada dez minutos antes.

Van Gaal no desespero

Na volta para o intervalo, Louis van Gaal desfez o esquema com dois centroavantes. Klose foi sacado e Arjen Robben, principal contratação do Bayern para aquela temporada, ingressou na equipe alemã. A tentativa, porém, durou menos de 15 minutos, porque aos 13, Braafheid, de atuação bastante errática, tirou a paciência do treinador holandês e deu lugar a Mario Gómez.

Com dois centroavantes, o Bayern passou a fazer um jogo de muita transpiração e pouca inspiração. Muitas bolas longas, incontáveis cruzamentos e pouca efetividade. De chances claras, apenas três na primeira meia hora. Uma com Toni, logo aos 2 minutos, num chute firme de pé direito; outra com Schweinsteiger, aos 16, num arremate cruzado, e a última com Gómez, no lance seguinte, num recuo errado de Chalmé que quase pegou Carrasso na contramão.

De resto, o Bayern não conseguiu furar o forte bloqueio defensivo do Bordeaux, que contou com Diarra em noite inspirada. O capitão dos Girondins bloqueou a maioria dos passes que rodeavam a grande área francesa e ainda exerceu uma soberania aérea digna de nota. Somado a isso, Trémoulinas não deu qualquer brecha para Robben, que foi figura discreta na etapa final.

O erro fatal

Com dois centroavantes e o relógio andando, não restou alternativa ao Bayern que não fosse alçar bolas na área e tentar, na marra, forçar um erro adversário. Erro esse, aliás, que não veio. Ele foi aparecer mesmo na própria defesa alemã.

Na última volta do ponteiro no tempo regulamentar, Fernando deu um balão pro ataque com o único intuito de afastar o perigo da defesa. A bola foi na direção de Chamakh, que disputava a corrida com Badstuber. Butt, vendo o companheiro em maus lençóis, decidiu deixar a meta. Foi o presente que o marroquino queria. O camisa 29, mais esperto, deu um toque na bola e tirou os dois rivais da jogada. Com a trave aberta, ficou mais fácil. Bola na rede e três pontos na conta.

A vitória na Alemanha praticamente classificou o Bordeaux – que ainda venceria Juventus e Maccabi Haifa e passaria de fase em 1º – e deixou o Bayern em apuros, forçando os alemães a vencerem os dois jogos restantes. Os dois passaram de fase, mas o clube da Baviera foi quem chegou mais longe na competição. Os Girondins despacharam o Olympiacos nas oitavas de final, mas pararam no Lyon nas quartas. Já os bávaros eliminaram Fiorentina, Manchester United e Lyon e só não ergueram a taça porque pararam na Internazionale, de Diego Milito e José Mourinho.

Mas nada disso serviu para apagar o que aconteceu em 3 de novembro de 2009. O Bordeaux, soberano, desbancou o futuro vice-campeão europeu, marcando um dos pontos altos de um time que ficou marcado na memória.

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